Itaporã perde DEMÁ, referência que formou gerações e marcou a história do esporte

Jornalista AntoniNo Rebeque.
Itaporã perdeu na noite deste domingo (9) uma das grandes referências de sua história esportiva. Morreu Ademar Waldemar de Freitas, carinhosamente conhecido como DEMÁ, treinador que dedicou mais de 30 anos de sua vida à Prefeitura de Itaporã e à formação de crianças, adolescentes e jovens por meio do futebol e do futsal. DEMÁ ainda estava trabalhando quando faleceu.
Muito querido pela comunidade, DEMÁ era conhecido pelos apelidos que dava aos atletas, pelo bom humor e pela maneira autêntica de lidar com as pessoas. Ao mesmo tempo, era firme e exigente nos treinamentos, cobrando disciplina e dedicação dentro de campo e nas quadras.
Foi essa combinação de amizade, personalidade forte e compromisso com o esporte que fez com que DEMÁ se tornasse uma referência para gerações de atletas não apenas de Itaporã, mas também de outras cidades de Mato Grosso do Sul.
Durante mais de três décadas, sua trajetória esteve ligada à Prefeitura e ao esporte de Itaporã. Nos treinamentos, ajudou a formar atletas que posteriormente ganharam destaque em competições estaduais e até no futebol profissional.
DEMÁ também foi um grande incentivador dos times de Itaporã, entre eles o Cruzeiro e o Itaporã Esporte Clube. Santista apaixonado, carregava no futebol também a paixão pelo Santos, sem deixar de apoiar e valorizar o esporte de sua cidade.
A participação de DEMÁ na história do futebol de Itaporã também chegou a uma fase que marcaria o início de uma trajetória vitoriosa. Segundo Nilson Pedroso, antes da profissionalização do Itaporã Futebol Clube, havia uma equipe formada por jogadores da cidade, dentre eles Jô (lateral), Alexandre (goleiro), Adriano (zagueiro), que atuavam pela GETCEL, estrutura responsável pelo esporte no município. DEMÁ e Jair Capetinha eram os treinadores daquela equipe, que posteriormente deu origem ao Itaporã Futebol Clube.
Quando o projeto se profissionalizou, um treinador profissional foi contratado para comandar a equipe. Segundo Nilson, aquela formação foi o início de uma trajetória que posteriormente levou o Itaporã Futebol Clube aos títulos das Séries C e B e a campanhas entre os quatro melhores do Campeonato Sul-Mato-Grossense. Naquele período, Nilson era secretário municipal e acompanhou de perto o trabalho de DEMÁ.
Um dos exemplos de atletas formados por DEMÁ é Eduardo Arroz, que iniciou os treinamentos com ele ainda jovem e posteriormente construiu carreira no futebol profissional, passando por equipes como Santa Cruz, Ponte Preta, Mirassol, Botafogo de Ribeirão Preto, Ituano, Guaratinguetá, América-RN, Operário e Sete de Setembro.
Em 2024, DEMÁ recebeu uma homenagem que hoje ganha ainda mais significado. Durante a sexta edição da Copa Novos Craques de Futsal, o troféu da competição recebeu oficialmente o nome de Troféu Ademar Waldemar de Freitas, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados por ele ao esporte de Itaporã.
A homenagem foi realizada em vida, durante o período em que Antonino Rebeque estava à frente da Secretaria Municipal de Turismo, Cultura, Esporte e Lazer, entre 2021 e 2024.
Para Antonino, DEMÁ sempre foi muito mais do que um treinador.
Eu sempre considerei o DEMÁ um cara fantástico, um homem que entendia de esporte e que todo mundo gostava. Ele era uma referência não só para Itaporã, mas para toda a nossa região e até para outras cidades de Mato Grosso do Sul. Por isso fiz questão de homenageá-lo em vida. O troféu da Copa Novos Craques levou o nome dele porque ele merecia esse reconhecimento enquanto estava entre nós.
A trajetória de DEMÁ também pode ser contada pela história de Nilson Pedroso. Antes de se tornar secretário municipal, Nilson foi jogador e teve DEMÁ como treinador.
Em 1995, ainda jovem, Nilson integrou equipes comandadas por DEMÁ e participou de conquistas importantes. Foi campeão dos JERES de futsal, em Ivinhema, na categoria dos nascidos em 1978, garantindo classificação para a etapa estadual em Corumbá, que servia como classificatória para os Jogos Escolares Brasileiros. Também disputou o estadual da categoria dos nascidos em 1979, em Campo Grande, ao lado de atletas como Eduardo Arroz.
Anos depois, Nilson passou de atleta treinado por DEMÁ a companheiro de trabalho na área esportiva. Foi secretário municipal de 2005 a 2012 e novamente de 2017 a 2024, mantendo durante anos uma relação profissional com o treinador.
Segundo Nilson, foram 16 anos trabalhando com DEMÁ.
Perdemos um grande amigo, uma pessoa que realmente usava seu conhecimento para ajudar as crianças. Treinei por cinco anos e trabalhei por 16 com o DEMÁ. Sua irreverência e sua autenticidade eram fora do comum, porque a verdade dele sempre vinha à frente.
Em outro depoimento, Nilson resumiu a dimensão da perda para Itaporã.
Itaporã perde uma referência no esporte, aquele que levou o nome da cidade aos quatro cantos do Estado e do Brasil. Os Jogos Escolares eram seu maior legado e ele teve êxito. Estivemos campeões enquanto atletas e tivemos como secretário, de 2005 a 2024, um exemplo de funcionário.
Aquele que, independente de qualquer coisa, estava ali no dia a dia para trabalhar, com seu jeito diferente e suas frases que sempre levavam a gente a pensar na vida. Realmente, uma perda irreparável. Fica para a posteridade sua vontade e suas vitórias. Ele formava campeões.
Nilson também destacou nomes de atletas que passaram pelos treinamentos de DEMÁ, entre eles Cristiano Tuta, Tico, Elisson, filho da professora Zélia, e Eduardo Arroz.
Sobre Cristiano Tuta, Nilson foi categórico ao falar da importância do goleiro para o esporte local. Segundo ele, Tuta foi o maior goleiro de futsal que Itaporã já teve e chegou a ser campeão como atleta nos Jogos Escolares, enquanto Nilson era seu reserva.
A história de DEMÁ também é marcada por uma amizade que atravessou gerações. Roni Peterson foi treinado por ele e lembra que o treinador chegou a comandar seu pai, depois o próprio Roni e, mais tarde, seu filho.
DEMÁ era um homem de coração generoso, que sempre encontrava uma maneira de motivar as crianças e nos contagiar com seu bom humor, relatou Roni.
Mas entre tantas lembranças, uma das mais emocionantes aconteceu poucos dias antes da cirurgia cardíaca de DEMÁ.
Roni contou que estava com uma viagem marcada para a terça-feira, mas soube que, na noite anterior, DEMÁ perguntava repetidamente por ele.
Cadê o Roni? O Roni não veio me visitar?, perguntava o treinador.
Ao tomar conhecimento da situação, Roni decidiu cancelar a viagem. Na quarta-feira, foi ao hospital e passou mais de uma hora ao lado de DEMÁ, conversando e dando risadas antes da cirurgia.
Foi importante isso para mim, porque imagina se eu tivesse viajado, não tivesse visto ele. Eu desmarquei a viagem para ir lá ver ele, contou Roni.
Após a cirurgia cardíaca, DEMÁ chegou a retornar para casa, mas apresentou complicações e precisou voltar ao hospital. Na noite deste domingo, a notícia de sua morte provocou comoção entre familiares, amigos, atletas e pessoas que conviveram com ele durante décadas.
Para Roni, DEMÁ deixou uma marca que dificilmente será repetida.
Mais do que um treinador, você foi um educador que cumpriu sua missão com firmeza e maestria. Sua trajetória foi marcada pela simplicidade, honestidade e transparência. Você deixará uma saudade imensa. Descanse em paz, meu amigo.
DEMÁ deixa uma história construída dentro das quadras, dos campos e, principalmente, na vida das pessoas que passaram por seus treinamentos.
Foram crianças que cresceram, adolescentes que se tornaram atletas, jogadores que seguiram carreira e homens que levaram para a vida os ensinamentos de um treinador que acreditava na disciplina, no esporte e na formação humana.
Mais do que conquistar campeonatos, DEMÁ formou pessoas para a vida através do esporte.
E talvez esse seja o maior troféu que um treinador poderia deixar.
Velório
O velório teve início à meia-noite , desta segunda-feira (10), no Memorial Pax Primavera, em Itaporã.
O sepultamento está previsto para às 16h, desta segunda-feira (10), no Cemitério Cristo Redentor, em Itaporã.
Fonte: MS Hoje Ponto Com





